Pedro Stephan
"Luana Moniz Rainha da Lapa"
Obra
Luana Moniz Rainha da Lapa
Sob o signo do estranhamento, o fotógrafo Pedro Stephan apresenta o ensaio, Luana Muniz, a rainha da Lapa. Revelando em raras imagens, eros e thanatos em potencial na rotina da travesti, empresária e poderosa chefona das bonecas da Lapa. Esses registros foram realizados em tempos diversos, e adicionam um importante ítem ao inesgotável mundo-imagem que nos cerca. O transgênero é um tema praticamente inexplorado na fotografia brasileira, mais por tabu, do que por fascínio, quando em verdade, existe de forma gritante e constante em nosso cotidiano. Do ponto de vista das travestis, bizarros são os outros que as rejeitam. Mesmo que saibamos de executivos pegos com a mão na massa no trajeto de volta do trabalho para o sacrossanto lar, ou do jogador milionário flertando com monas bicudas, que barra!
A temática dos transgêneros faz parte da história da vida mundana carioca e tem incendiado o imaginário popular por várias décadas: dos Dzi Croquetes (grupo de dança e teatro dos anos 70) ao Gala Gay, sofisticado baile de carnaval que fez história na vida noturna carioca nos anos 70 e 80. O Rio foi o palco onde surgiu nos anos sessenta o “Les Girls”, primeiro show de transformismo do Brasil e da América Latina, aqui foram reveladas ao mundo, estrelas como Rogéria, Eloína, Laura de Vison, Roberta Close. Antes deles o famoso malandro, Madame Satã, se travestia, enfrentava a opressão da ditadura Vargas, e acabou tornando-se um ícone da Lapa boêmia e rebelde que resistiu à repressão moralista dos anos 30 / 40. Isso faz parte da lenda urbana carioca.
Sabemos que em todas as sociedades e épocas existiram transgêneros e transsexualidade, feminina e masculina. Entretanto, os transgêneros têm sido demonizados e massacrados ao longo da história por fundamentalismo religioso e falsos moralismos, amparados pela força do vil metal e dos podres poderes vigentes, em nome de uma normalidade produtiva e hipócrita. A Microfísica do Poder de Foucault em tempo real.
Pedro Stephan investe frontalmente contra o preconceito que cerceia a complexa questão da transsexualidade, reflete com a autonomia por ser pioneiro da abordagem da temática glbt na foto brasileira na era pós-aids.
Um dos trunfos desse mosaico de informação é a variação possível de leitura a ser operada pelo espectador. Lemos através de suas fotos um jogo visual de registros em seqüência-narrativa do trottoir das bonecas, comandadas por Luana, nas calçadas da Avenida Mem de Sá. Performances marcadas por olhares, gestos e todo um código secreto de comunicação, criado dentro de um dado segmento social. As imagens documentais de Stephan estão calcadas no real, mas abordam um mundo de fetiche e transvestismo, remetendo o espectador a um universo noturno permeado de signos incisivos e diáfanos: espectros, tatuagens, corpos transformados, sombras e olhares libidinosos.
O fotógrafo decodifica a estranha linguagem na pista do trottoir trans, respeitando os limites impostos por Mona Luana, síndica inequívoca das calçadas noturnas da Lapa. A travesti-mór encarna a trajetória de uma parte considerável das transgêneros no Brasil: geralmente expulsas (ou rejeitadas) de casa, pelas suas próprias famílias ainda muito jovens, são praticamente forçadas à prostituição como única forma de subsistência.
Na pista e no trottoir a dicotomia natureza x cultura é suplantada pelos devaneios da imaginação erótica, em parte construída pelas próprias travestis, num território fronteiriço entre necessidade e sedução. O infravermelho da câmera de Pedro Stephan revela a zona oculta de um mundo à parte, que sabemos existir, mas pouco se conhece a não ser pelo filtro da rejeição, do preconceito e da piada travestida de medo. Dez noves fora, o ensaio de Stephan é dedicado a nós, cegos que não querem ver.
Marcos Bonisson
Biografia
Pedro Stephan
Local da Exposição
Galeria Show Me
Um antigo armazém no centro histórico de Braga, dá agora lugar ao projecto Show Me ? Design, Art & Copos. A ideia e concepção do projecto é de Diana Sequeira e Guilherme...
— Mais informaçãoHorário
15h - 19h30
Horário de Segunda a Sábado.