Georges Pacheco

"Amalthée"

Amalthée

O título deste trabalho provém do nome da cabra que amamentou Zeus, segundo a mitologia grega. O trabalho consistiu em fotografar mães com distintas personalidades e diferentes corpos, aquando do momento da amamentação dos seus bebés, na atmosfera íntima do meu estúdio. Pretende-se prestar uma homenagem fotográfica a este ato universal que é a amamentação, adotando referências da pintura do Renascimento italiano e holandês. É igualmente feita referência à sensualidade que rege a maior parte das pinturas religiosas desde a Idade Média, muitas vezes próximas de temas profanos, através da introdução de poses sugestivas e do recurso ao nu.
Ao revisitar este ícone da virgem a amamentar, que foi tema central e recorrente da pintura dos séculos XV a XVII, a ponto de ter marcado o nosso inconsciente coletivo, procuro questionar os processos de representação e de incarnação do arquétipo, através de mães reais e da nossa atualidade, a quem pedi que se colocassem na situação de "fora de si próprias" enquanto viviam a plenitude desta ligação privilegiada e deste momento íntimo com o seu filho.
Um dos objetivos deste trabalho é o de revelar a universalidade deste gesto, sugerindo um sentimento de intemporalidade: retirando qualquer vestígio de contemporaneidade, libertando cada uma das mães de tudo aquilo que levaria a identificar um tempo e um lugar; concentro-me na relação mãe/filho e na beleza e emoção que se liberta nesse momento de amamentação. Para tal, utilizo, de forma minimalista, simples véus e tecidos, de forma a evocar a ideia do intemporal e apagar as diferenças de identidade destas mulheres.
No interior do meu estúdio, como simples espetador desta cena simbiótica, eu observo, foco e extraio assim os momentos evasivos deste estado de graça, onde se revelam os contornos de uma postura "fora do tempo" em conjunto com uma sensação de um déjà-vu pictórico. Longe de pretender plagiar ou imitar esta ou aquela representação da virgem a amamentar, com a utilização de um modelo específico, tento antes compreender como se processam determinados mecanismos introjetivos de identificação, como é o caso da assimilação de imagens tão simples e tão fortes como as das Nossas Senhoras da iconografia cristã.
Outro dos objetivos deste trabalho é o de questionar de que forma a fotografia, na sua condição de ferramenta de transcrição da realidade, poderia acrescentar algo mais para além do que foi feito na pintura, em relação à construção deste tipo de imagens, e simultaneamente focar a sua capacidade de revelar pormenores que os pintores da Renascença não quiseram ou não puderam representar.

Georges Pacheco

Georges Pacheco vive entre Le Mans e Arles. Diplomado pela École Nationale Supérieure de la Photographie d’Arles em 2012, bem como em Psicologia da Arte pela Université Paris X, dedica-se há vários anos a examinar em profundidade a condição humana. Adaptando as suas abordagens e dispositivos às diferentes problemáticas que trata, procura compreender os processos de representação através da fotografia de retrato e de lançar um olhar comprometido sobre o género humano. A sua implicação e a proximidade que cria com as pessoas que fotografa ou a quem pede que façam um autorretrato, são também necessidades suas de pôr à prova e questionar o outro. Georges Pacheco expôs, entre outros, na Galerie du Château-d’Eau em Toulouse e no Centro Português de Fotografia em 2007, no Festival Mai-Photographies de Quimper em 2008, no Centre d’Art Contemporain Stimultania de Strasbourg em 2009 e na Galerie IMMIX em Paris em 2011. O seu trabalho foi igualmente projetado no âmbito do Festival Voies Off à Arles em 2008, no Festival ImageSingulière em Sète em 2009, e nas Journées Photographiques de Bienne em 2012, na qualidade de finalista do Rado Star Prize. A sua série Amalthée fez parte da seleção internacional do Festival Voies Off em Arles em 2012. Uma das imagens da série está exposta na National Portrait Gallery de Londres como finalista do Taylor Wessing Photographic Portrait Prize e recebeu, em 2012, o 2º Prémio de Photographies de l’Année, na categoria de Retrato. Foi atribuído ao seu trabalho o Prémio Voies Off em Arles em 2007 e fez parte dos 16 finalistas do Prémio de Fotografia da Académie des Beaux Arts em 2009.

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No âmbito do projeto de intervenção integrada no Convento de São Francisco de Real, promovido pela Universidade do Minho para instalação da Unidade de Arqueologia,...

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