Christto & Andrew

"Glory of the artifice and Liquid Portraits"

Glory of the artifice and Liquid Portraits

O desejo de possuir coisas maravilhosas levava Andy Warhol a acumular caixas em armazéns, com objetos que nunca voltaria a ver. Anos antes, a Rainha Victoria, cujas posses se estendiam por vários continentes, tinha procurado um subterfúgio para este desejo de colecionar; graças ao aperfeiçoamento da recém inventada técnica fotográfica, ela fez álbuns onde apareciam todos os seus pertences e cada um deles. O prazer ao rever estes álbuns residia no facto de, em caso de deterioração, poder replicar qualquer um desses objetos.
Não deixa de ser significativo o que aconteceu em paralelo com a investigação sobre a técnica fotográfica e as transformações económicas modernas. Enquanto uma tentava captar a natureza fugaz, a outra fornecia formas de duplicar e superproduzir, assim, o que deveria ser fotografado não só se multiplicava nas suas representações, como também na sua própria essência. De modo que, na atualidade, não só contamos com um maior número de imagens reproduzidas, mas também com clonagens dos próprios objetos, e até mesmo dos lugares e das pessoas, permitindo a aquisição de imitações dos supostos originais.
Nos dias de hoje podemos perguntar-nos onde está o artifício, que lugar ocupa a imitação, a recriação de tudo aquilo que antes era exclusivo, ou até como identificar o luxo nos tempos modernos? Onde reside o valor, no objeto ou na reprodução que evidencia a sua posse? Assim, somos rotulados, mapeados, é-nos colocada uma etiqueta no pé com os nossos nomes.
A rainha Victoria, olhando foto após foto, imagens diferentes do mesmo objeto, deliciando-se com a sua modernidade. Qual é a diferença em relação ao nosso egocentrismo; à nossa perceção perante uma modernidade única e homogeneizadora, atravessada pelos filtros do decolonial, onde continuamos a usar as mesmas estratégias do século XIX, onde é contraposta uma suposta autenticidade de forma a eufemizar o original? Esse valor de autenticidade, que deslocamos das imagens aos objetos, aos lugares, às pessoas e aos seus comportamentos, e até mesmo aos afetos. É curioso como a ilustração propiciou uma mudança no luxo, tanto que até nos custa pensar que este tivesse sido um território eminentemente masculino, olhando a feminização que sofreu ao longo dos últimos séculos, e que é facilmente percetível ao observar as indústrias atuais.
E é neste território onde os objetos, as identidades, e a sua representação se multiplicam replicando-se sobre si mesmos, que Christto & Andrew (n.1985/1987) criam uma zona de atrito. Não é em vão que a sua inclusão nas modernidades seja apresentada com base num território de conflito, como é o Qatar, onde coexiste um desejo de hipermodernidade, e de gerar uma contemporaneidade com base num modo de entender a riqueza aliado a uma vontade de preservar a tradição. Deve permanecer inalterado ou interligar-se com essa atualização do país? De que forma? Para além disso, a sua visão é a de dois migrantes, um porto-riquenho e um sul-africano, que constroem um imaginário nesse espaço, e a partir dele. E é nessa coexistência de modernidades que criam a sua produção e instalação fotográfica, evidenciando esse conflito, essa esquizofrenia permanente.
Deste modo, “Glory of the Artifice” (2015-2016) e “Liquid Portraits” (2014-2015) partem de estruturas tradicionais da história da arte, de retratos e de naturezas-mortas, sobre as quais impõem uma saturação, tanto cromática como de sentido, que gera uma crise na nossa perceção. Não é em vão que a sociedade ocidental tem sido acusada de sofrer de cromofobia, adicionando assim mais uma fobia às estruturas de homogeneização propostas. Se pegarmos em algumas das imagens pertencentes a esta série, tais como “An Unusual Request” (2015) ou “Collapse of Time” (2015), conseguimos facilmente identificar muitos dos itens que definem a nossa sociedade contemporânea: comunicação, proteção, segurança, ostentação, raça... porém cada um destes elementos contém o seu oposto de uma forma óbvia e dolorosa; está na fragilidade do traje, na impossibilidade de realizar uma chamada, cada detalhe fala-nos de fraturas.
Superproduzidos no excesso e no seu oposto. Flutuantes em identidades que continuam enquadradas em estruturas rígidas. Já não é necessário que evidenciemos a coexistência de alfabetos em “The Advance of Absoluted Knowledge” (2014), pois atravessa-nos uma multitude de línguas. É possível que a melhor forma de torná-lo evidente seja utilizando as suas próprias ferramentas. Trabalhar através da imagem, como fazem Christto Sanz e Andrew Weir, mas trabalhar também com os dispositivos nas quais são expostas. Demonstrando que essa coexistência de modernidades é tão artificial como os retratos com que as ilustram, deixando notório que continuamos a ser imagens vestidas com os disfarces das nossas identidades.
Com essas roupas voltamos ao início, à Condessa de Castiglione, uma batalhadora pelo artifício que tenta acalmar a sua necessidade de frescura, mas ao mesmo tempo de prazer, nas paisagens enclausuradas pelos pisa-papéis. É possível que consigamos que o trabalho de Christto & Andrew produza em nós uma cruel delícia com a sua maravilha, e que assim possamos surpreender o mundo, questionando-o através delas.


Eduardo García Nieto
Crítico de arte e curador.

Christto & Andrew

Christto & Andrew são uma dupla de artistas atualmente a viver e a trabalhar em Doha, no Qatar. As sua imagens fundem-se entre si como se fossem peças de um quebra-cabeças para mostrar através da sedimentação de símbolos, os efeitos da história, política, economia e cultura popular em que a sociedade contemporânea está assente, especificamente na região da Arábia. Assim, cada objeto ou personagem retratado nas suas fotografias é convertido em reflexões simbólicas destas estratificações presentes na sociedade do Qatar. Utilizam o Qatar como exemplo, exagerando nas suas cores e composições; e com um humor particular assinalam o constante desenvolvimento, e o estado maleável de transformação em que se encontra o país. Da mesma forma, objetos resgatados em áreas de construção são transformados em moldes de cimento e os trabalhadores, em modelos que através da fotografia subvertem as noções de valor, de mercantilização e de ocupação. Desta forma, Christto e Andrew, não criticam, apenas apresentam dois diálogos paralelos, o dos locais e o dos estrangeiros, tecendo conjuntamente uma complexa rede de culturas e subculturas evidentes na maioria dos contextos do Golfo e da região MENA.
A prática artística de Christto e Andrew evolui como um processo simbiótico, reforçado por uma polinização cruzada das suas diferentes origens.

Artistas Representados pela 
Galería ESPAI TACTEL http://www.espaitactel.com

Museu Nogueira da Silva

Avenida Central 45/61 - 4710-228 Braga

O Museu Nogueira da Silva deve a sua fundação ao legado, feito em Setembro de 1975, a favor da Universidade do Minho pelo Senhor António Augusto Nogueira da Silva....

Mais informação

Horário

Terça a Sexta | Tuesday to Friday | 10h00—12h00 e 14h00—18h30 Sábado | Saturday 14h00—18h30

Encerram Sábados de manhã, Domingos e Segundas.

Mecenas Prémio Emergentes DST

dstgroup

Apoio à Impressão

lumen koylab graficavv

Apoio ao Design

gen