2011 Edition

Vários Artistas

"KameraPhoto"

KameraPhoto

Vejo portugueses de todas as idades cumprindo vidas pendulares entre a precariedade e os subúrbios. Vejo-os à espera nas paragens de autocarro, encostados a publicidades de vidas prósperas, vejo-os nos transportes, embalados pelo caminho. Pelas janelas passam os prédios inacabados dos arrabaldes, porque não há dinheiro para terminar o que se começou e isto não vai lá com sete palmos de terra. Há casas vazias onde vai brotando vegetação rasteira, insidiosa, indiferente aos mercados, crescendo por entre os esqueletos de betão de um sistema que ruiu. Há juros em alta. Os banqueiros são insuspeitos, o patronato é insuspeito. Fatos de três peças não enganam, chamo-me doutor, chamo-me engenheiro, sou insuspeito. São os outros que vivem acima das suas possibilidades mas por todo o lado há gente a procurar uma vida melhor. É a luta silenciosa dos que resistem, dos que têm algo a dizer, ainda que ninguém ouça, dos que alimentam esta máquina sedenta que pede sempre mais, dos que compõem os números, os 842,9 mil precarios, os 402 mil com salário mínimo, os 700 mil desempregados. Todas as vidas podem ser trocadas por números, reduzidas à urgência das contas, subjugadas ao grande esforço nacional que é cumprir metas. Depois sim, realizaremos os nossos sonhos. Viveremos dentro de possibilidades infinitas que nos acenam lá longe. Ultrapassaremos esta sensação que se nos cola à pele, de termos chegado cedo, uns anos antes de qualquer coisa, que a festa é só mais tarde, que isto ainda vai virar país. Enquanto esperamos, as gerações mais qualificadas que esta terra já formou emigram. Fica quem tem que ficar, entregue a esperança nenhuma, aos estágios profissionais, aos falsos recibos, aos turnos, aos pagamentos por conta, aos créditos, aos call centres, às caixas de supermercado, aos shoppings, ao cheese com batata e cola. Os bancos têm lucros obscenos porque vivem acima das nossas possibilidades, indiferentes à espinha vergada de quem os sustenta, ignorando as madrugadas dos centros de emprego, feitas de filas contornando quarteirões. Todos os dias há um sentimento sem nome, entre a resignação e a esperança, que enche salas de espera, que preenche formulários, que se acumula em prateleiras, que aguarda trabalho. O desemprego come por dentro e cresce todos os dias, espalhando-se pelas fábricas em falência, pelos campos desertificados, pelas cidades moribundas. O tecido produtivo desintegrou-se mas dizem-nos que o mal é que há quem não queira trabalhar nesta terra de malandros, são todos uns larápios menos eu. Assim se vira o nu contra o roto, enquanto o pobre fica mais pobre e o rico fica mais rico. As maiores fortunas do país aumentaram 17,8% em 2010. Aguenta. Não desdenhes o teu trabalho, que em terra de cegos, quem tem olho é rei. Por isso aumenta o número de trabalhadores com salário mínimo. Por isso há precários por todo o lado e há pessoas que trabalham mas mesmo assim precisam da ajuda dos outros e recorrem a bancos alimentares. O bom trabalhador é o trabalhador de mãos atadas. Porque no meu país, não ser pobre é um luxo e os direitos são privilégios. Ter casa não é para todos, apesar da Constituição e da publicidade dizerem que sim. A dignidade tem um preço. A liberdade tem um preço. Há filhos por nascer aos quais será dito que o momento é de crise, que terão que expiar os erros passados e continuarão a pagar pelo país que não têm, tal como eu faço agora e outros fizeram antes de mim. Estou cansado desta vida. Não me chega o amor, quero os meus direitos. Há promessas de prosperidade por cumprir. Onde estão os antigos ministros? A política é a desilusão e o desinteresse do povo. Alguém colheu a riqueza que todos pagamos. Quero ver o país pelos olhos de quem ganhou com isto, em vez de olhar as velhas do meu bairro que às sete da tarde saem à rua e vão pilhar os caixotes do lixo do supermercado. Levam pão e levam fruta. Talvez seja porque metade dos idosos deste país vive no limiar de pobreza. Depois vêm os pombos, que não fazem nada por ninguém, vêm pilhar o que ficou. Rasgam os sacos, comem o pão, comem a fruta, sujam a rua toda, sujam-me o bairro, não amam o próximo como a si mesmos, não querem saber da imagem que projectam para o exterior. Eu fico a olhar, sempre à espera que algo aconteça, à espera de um novo dia que há-de vir, que não chega nunca. Vou esperar sentado. Vou falar baixo. Vou ficar calado. Não me distraiam. A televisão diz-me o que eu preciso de saber, os famosos também choram e isso é uma coisa bonita, os políticos tocam no coração do espectador com sincera abnegação, os concursos comovem-me, se dançar para a câmara pagam-me a conta da electricidade e, pelo menos hoje, posso dormir descansado. Amanhã logo veremos. É preciso manter a ordem. A Europa tem mil olhos. Dizem-me que o meu trabalho não chega. Que os meus impostos não chegam. A estabilidade não se discute. Se todos pensarem por mim serei mais forte. É preciso tapar buracos e ouvir a música delicada dos aplausos de Bruxelas. É preciso alimentar as engrenagens maquinais que concretizam o sonho europeu. Compra, paga, pede. Trabalha, cala, come. Tudo é maior que eu. Os meus sonhos podem esperar. O futuro há-de vir. É importante não fazer ondas. Que se lixe a liberdade. Eu hei-de aguentar não sair à rua a reclamar o que já foi meu, o que construí, o que faz parte de mim. Eu hei-de aguentar o que me exigem sem explicações. Eu hei-de aguentar tudo até ao dia em que não aguente mais.

Vários Artistas

(PT): Alexandre Almeida, Augusto Brázio, António Júlio Duarte, Céu Guarda, Guillaume Pazat, João Pina, Jordi Burch, Martim Ramos, Nelson d’Aires, Pauliana Valente Pimentel, Pedro Letria, Sandra Rocha e Valter Vinagre

Local da Exposição

Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa

O Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa é um organismo público, dependente do Instituto dos Museus e da Conservação e do Ministério da Cultura definido na sua Lei...

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Horário

Terça a Domingo | Tuesday to Sunday | 10h to 17h30

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