Mireille Loup

"Divorced"

Divorced

A manipulação dos diferentes suportes de expressão de Mireille Loup - vídeo, fotografia e literatura - servem formas discursivas e estéticas que estabelecem uma comunicação transversal. O trabalho de Mireille Loup é um convite a possíveis representações da condição humana, principalmente as da mulher e da criança sempre num conteúdo social e atual. Maternidade, fragilidade da criança e da mãe, demissão familiar. Quer nos dispositivos visuais, quer nas instalações, nos sites da Internet, ou em publicações, a arte vídeo de Mireille Loup inscreve-se numa estética voluntariamente realista, frequentemente sem efeitos. Nestes vídeos de sketchs que faz desde 1992, há sempre lugar a um humor incómodo e direto. É simultaneamente escritora, encenadora, atora e editora. Trata-se de um trabalho de atelier, feito à mão, em que organiza estas espécies de representações de auto-retratos. Inspira-se em estereótipos que leva à fronteira da tragicomédia com visível distanciamento. Os personagens que incarna, oscilam constantemente entre o ridículo, o aflitivo e o ordinário. Desde a "pobre rapariguinha" à "pior das cadelas", a galeria de retratos da artista descarrega-se diante da câmara, tornando-nos testemunhas e colocando-nos numa situação de constrangimento da qual só conseguimos libertar-nos através do riso. Sendo cómica de repetição e de situação, os seus vídeos são excelentes na arte do trocadilho. Divorced, realisado em 2013 em HD difundido em Blu-ray, com uma duração de 21 min., mostra mulheres nos quarenta, deixadas sozinhas a criar os filhos, na precaridade ou sobrecarregadas, sempre com os nervos à flor da pele, à beira da fratura ou do esgotamento. Sem trabalho, imundas, amantes, cada personagem representada por Mireille Loup, destitui-nos com crueldade de qualquer espécie de empatia. A artista induz-nos igualmente em erro, entre ficção e realidade, ao escolher temas autobiográficos. É que, quem melhor que uma mulher, saberia falar de mulheres? Ao longo destes anos de produção, Mireille Loup conta-nos a sua vida, a qual desmonta, remodela, parodia, numa espécie de catarse de condição humana que nos remete constantemente para a humildade. Uma vida manipulada pelo espetador que os seus duplos esquizofrénicos reinventam e representam, geralmente em número de doze personagens. Eles inspiram-se em cada situação roubada, mordida, para tentar saciar a sua extrema fome de parodiar a sordidez que reproduzem há vinte anos. Acompanhada pelos seus doze fantasmas cínicos, Mireille Loup nunca está só. E a história permite-lhe encontrar um décimo terceiro personagem e ator dos seus filmes, desta feita retirado da vida real e não fruto da sua imaginação. No filme Grosse, 13’ (2006) ela encena o seu filho, de embrião a feto, até ao parto. Uma farsa que revoluciona todos clichés da doce mulher grávida, que prepara o quarto do seu bebé. Nasce então Côme, o filho da realizadora. De carne e osso e não em formato digital. Ao lado da sua mãe, será protagonista de Banane et petit Suisse 6’ (2007). Onde estiver a mãe estará a criança, asfixiada numa relação simbiótica. Com o filme mudo Epoque 2009, 4’ (2010), Mireille Loup faz a caricatura dos filmes dramáticos do início do século e simula o abandono do seu filho, em consequência da crise económica. Côme, então com três anos, diverte-se de tal maneira a representar comédia que não pára de lhe pedir que façam outro filme juntos. Mireille Loup divorcia-se em 18 de setembro de 2012. Tinha 42 anos. A artista fica com a custódia do seu filho de seis, e inicia-se então uma correria entre babisitters, amigos disponíveis, deslocações artísticas e organização do trabalho. O mundo desaba aos seus pés e o seu quotidiano assemelha-se a um dos seus vídeos. A vida dá-nos por vezes pontapés que nos devolvem a humildade. Os seus amigos, nem sempre da mais fina educação, é bom que se diga, riem-se à custa dela "ah! ah! tens mesmo de nos fazer um vídeo, deves ter muito que contar!" Se tivesse tempo, Mireille Loup afogaria as suas lágrimas no ópio ou a ver a série Six Feet Under, mas não tem um minuto de seu e ah, ah! realmente ah! ah! ah!", não tem vontade nenhuma de rir! E nos raros momentos em que consegue descontrair-se, encontra-se em jantares, rodeada de mulheres da sua idade ou mais velhas, igualmente divorciadas, criando os seus filhos sozinhas, esmagadas entre a amargura, as falsas novas experiências amorosas, os problemas financeiros e as crises de nervos. Entre as suas congéneres, Mireille Loup, com os cotovelos em cima da mesa, de que servem as boas maneiras..., bebe um copo de rosé. Não é só isso, mas vai ter de pensar em voltar. Observa, escuta, verifica as situações recorrentes, os gestos, como mente a si mesma, as inconsequências, os gritos, as aflições, as euforias passageiras. Reúne à sua volta todas as mulheres que pouco a pouco desprezam os homens, antes de conseguirem finalmente voltar a amar. Sim, mas quando? Como poderá ela prestar homenagem a si própria bem como a todas as outras, pela sua coragem e seu sofrimento? E isto poupando-se ao ridículo de se deixar cair no patético. Como conseguir explicar que é absolutamente necessário evitar que a máquina páre, que a acidez que corre dos lábios não é nada sedutora, que é possível ter o cabelo lavado mesmo quando se é solteira, que pode haver algo a lamentar sem nunca ter remorsos pois isso estraga a pele, que uma pele que perdeste, não é pior do que duas a que poderás vir a encostar-te, que tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia se parte, que vale mais rir que chorar, que se está bem em casa mas que isso não basta, amanhã atiro-me ao trabalho. Então, um novo vídeo põe o nariz de fora, não deixando qualquer espaço para comiseração. As diversas personagens que Mireille Loup representa uma de cada vez, desde há vinte anos, ressurgem individualmente: a russa, a pega, a burguesa, a intelectual, se quisermos atribui-lhes nomes. Assumem posição no espírito da realizadora à medida das situações testemunhadas pela artista, e gritam: “eu fico com essa!", "tenho!", a correr de braços no ar e partindo com uma ideia sobre a qual terão de elaborar. Finalmente Mireille Loup começa a ter vontade de rir da situação. Estamos na primavera de 2013, os passarinhos fazem piu-piu e o sol canta. Propõe ao seu filho que represente com ela, para encenar momentos difíceis que não viveram, mas que poderiam ter vivido se a sua relação não fosse tão feliz nem o seu ambiente tão solidário. Côme aceita entusiasmado por participar também nessa catarse que poderá tornar sua. Como será excitante representar um papel irracional, quando, aos sete anos, se acaba de atingir a idade da razão! Ela escreve os sketches mas abandona desta vez a ideia da auto filmagem, selecionando como câmara Héloïse Gousset, uma estudante de belas Artes de Nimes (França), mãe de uma menina e a viver numa caravana. Em maio de 2013, nasce Divorced.

Mireille Loup

Mireille Loup nasceu na Suíça, em 1969. Vive e trabalha em Arles, França. É fotógrafa, videógrafa e escritora. Está representada em galerias desde 1991 em França e no estrangeiro. Diplomada pela École Nationale Supérieure de la Photographie, vê as suas obras publicadas a partir de 1999. Desde instalações visuais e sonoras, a ficções na Internet e aplicações iPad, a arte de Mireille Loup serve formas discursivas e estéticas que estabelecem uma comunicação transversal. As suas obras são expostas em centros de arte, festivais (Les Rencontres d'Arles 2005 e 2012), bem como em museus como o MAC de São Paulo (Brasil), o museu Malraux (França), o MAMAC de Liège (Bélgica) e o Centre National des Arts, em Ottawa (Canadá). Está presente em numerosas coleções públicas e privadas, entre as quais o National Fund for Contemporary Art e a Metropolitan Museum of Art Library. É representada pelas Galerias Pobeda em Moscovo, Brandt em Amsterdam e Dear Sir Agency em Portugal. Mireille Loup ensina história da fotografia no Master 2 na universidade de Montpellier III e Estética da imagem, na universidade de Arles Provence, departamento de Imagem Digital. Intervém também na VAE (validação das aquisições de experiência) da École Nationale Supérieure de la Photographie em Arles e dinamiza workshops nas diferentes Escolas Superiores de Belas Artes. Ligada aos problemas da infância, promove regularmente workshops de arte com crianças e adolescentes, particularmente pertencentes ao ensino integrado (CLIS) e em pedopsiquiatria.

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