Joan Fontcuberta

"Miracles & Co."

Miracles & Co.

Salpicada de lagos profundos e bosques frondosos, a Carélia é a zona mais meridional da Finlândia e esta situação tem sido a causa de frequentes litígios fronteiriços ao longo de toda a história, primeiro com o império czarista e depois com a URSS. A Carélia não só esconde o enigma de ser o berço do Kalevala, a extraordinária epopeia do herói Wainamoinen, mas também é terra de superstições e lendas, bem como de antigos cultos pagãos que a Igreja Ortodoxa não teve dificuldade em integrar. Esta presença religiosa manifesta-se na forma de mosteiros solitários e aprazíveis, alguns dos quais abandonados e em estado de quase ruína desde as incursões bolcheviques primeiro e da invasão estalinista, depois. É o caso de Valhamönde, um mosteiro que foi erigido segundo a tradição por dois missionários de origem grega, o monge Sérgio e o seu jovem prosélito Herman, no alvorecer do segundo milénio. De facto, apenas se conservam indícios documentais a partir do século XVII, embora quando muito mais tarde já, a diocese Careliana foi criada em Vyborg, muita informação valiosa se tenha perdido quando os revolucionários incendiaram o arquivo diocesano. Pouco depois da independência da Finlândia em 1917, Valhamönde alcança a autonomia canónica, mas é atribuída à invocação do Patriarca Ecuménico de Antioquia. Desde então, a evolução torna-se imprecisa; a comunidade de monges diminui gradualmente e o mosteiro parece isolar-se do resto do mundo. Para esse isolamento contribuem as enormes dificuldades de acesso: o denso nevoeiro e o intrincado labirinto das 13710 ilhas do lago Saimaa, bem como cartas de navegação defeituosas, protegeram Valhamön da curiosidade externa. Além disso, os monges enfatizaram a natureza emaranhada do seu esconderijo, construindo ilhotas artificiais e abrindo canais estreitos, num evidente afã de vincular a sua sede ao significado esotérico do labirinto (provavelmente teriam adotado o modelo do labirinto próximo, Gotland). Afastado e discreto, portanto, Valhamönde só mereceu a atenção dos jornalistas quando um ex-membro da comunidade monástica, Munkki Nikolaus, revelou a verdadeira natureza das suas atividades: esse centro espiritual secreto, esconde afinal uma escola onde se ensina a fazer milagres. Segundo parece, chegam a Valhamönde monges de todas as religiões e membros das seitas mais absurdas, com cândido propósito de aprender a dominar o sobrenatural. Trata-se naturalmente de uma vigarice descarada, mas cujos nebulosos interesses vão além dos meramente económicos próprios de todas as fraudes, para se infiltrarem nas redes de domínio religioso e político, e nesse sentido não seria improvável associar Valhamönde a organizações secretas e serviços secretos. Experiente em questões de ficção, eu quis usar nesta altura os recursos estritos do jornalismo de investigação e da fotografia documental para fazer face a este caso flagrante de impostura. Para fazer esta reportagem, fingi ser aprendiz de sacerdote, capaz de pagar a elevada inscrição e seguir cursos de Valhamönde juntamente com os outros noviços, o que me permitiria praticar o ciclo de milagres de terra, de água, de ar e de fogo, enquanto compilava fotografias e outras provas que pudessem desmascarar uma invenção tão incrível. Este é o único propósito destas imagens.

Joan Fontcuberta

Nasce em Barcelona, em 1955. Joan Fontcuberta desenvolveu uma actividade plural no mundo da fotografía como criador, docente, crítico, curador de exposições e historiador. Professor convidado nas universidades de Espanha, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos, colabora regularmente em publicações especializadas. Em 2013 foi galardoado com o premio Hasselblad.

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