Roger Ballen

"Asylum of the Birds"

Asylum of the Birds

O trabalho de Roger Ballen é uma teia de imagens situada nas profundezas. As suas fotografias são complexas concretizações visuais e mentais. Agrupadas dentro de um universo de clausura que é completamente quadrado, elas ascendem à superfície como cristais, cintilando com infinitos reflexos de cinzento. Elas viajam através de um completo espectro, entre a monotonia da ardósia e o brilho da sílica, desde o branco translúcido da calcite até ao impenetrável preto do ónix.

O seu mundo é uma galeria submersa, tanto psicologicamente como geologicamente, acomodando uma acumulação de grafíti, cabos, sombras, manchas, cascalho, ossos, máscaras, bonecas, animais, rostos humanos, e corpos fragmentados e misturados em magma.

Os seus quartos são paisagens ínteriores, incongruentes contudo habilmente construídas, ilógicas como sonhos e puras como jóias. É como se o processo da prata coloidal (silver gelatin process) transformasse a prática do artista num ramo da geologia que mergulha na sua psique como uma mina, em busca de sentido, retirando amostras representativas da suas sucessivas camadas, cada vez mais fundo, descobrindo materiais inesperados, sedimentos e fósseis. Descendo até ao crepúsculo da consciência onde as memórias se reúnem e os sonhos nascem – o lugar obscuro que se encontra no centro da terra, da vida, do ser humano.

A câmara de Roger Ballen trabalha como uma broca: as suas imagens perfuram o tempo. Elas movem-se em espiral, desde a superfície do momento até às regiões mais baixas de um passado mais distante. Desde as suas fotos mais antigas, que representavam a atual presença de um lugar ou rosto, até aos seus mais recentes trabalhos, que formam a imagem onírica de uma era ancestral, ainda antes do tempo começar a passar. Numa cronologia inversa que se desenrola desde o agora até ao depois, tão remota que se perde no crepúsculo da memória. As suas imagens mergulham no espaço. Elas avançam em círculos concêntricos, o seu foco atravessa desde o nível das imediações mais próximas até ao submerso funcionamento interno do indivíduo. Desde as aldeias rurais do seu início de carreira até aos compartimentos cerebrais dos seus trabalhos mais recentes, traçando uma topografia invertida, do exterior para o interior, do mundo para o eu.

São fotografias que se desvendam como as descobertas de uma pesquisa. Carregam com elas vestígios de um tempo perdido e de um lugar secreto, feitas a preto e branco, que não é ausência de cor, mas sim a cor do pensamento. Branco como o papel e preto como a tinta. Branco como uma pomba, ou um rato, ou como as suas carcaças despidas pela passagem dos anos. Preto como carvão, ou como os vestígios de desenhos deixados na parede de uma caverna. Cinzento, como o resultado da sua combinação. Como pedras, como poeira, como sombras, como o cérebro. Estas são as cores que a mente projeta na realidade, certamente não são aquelas que o olho vê. As cores das fantasias, memórias, pesadelos, sonhos, conjeturas. Notas, esboços, desenhos: todos os processos que numa só palavra são chamados de arte.

Asylum of the Birds é o título sob o qual Roger Ballen escolheu reunir o seu recente trabalho. Palavras com diferentes sentidos alojados debaixo da sua superfície. Por um lado, uma casa nos arredores de Joanesburgo, que combinando verdade e ficção, alberga uma grande variedade de moradores e um extraordinário número de pássaros, voando livremente. Por outro lado, um simbólico lugar no ponto de encontro entre a terra e o céu, vida e morte, liberdade e confinamento, inferno e paraíso. Asilo, simultaneamente refúgio e prisão, ninho e jaula. Pássaros, pomba branca ou corvo preto, uma aparição Bíblica que é o prenúncio do futuro ou o sonho delirante de um fim sem fim, como nos versos de Poe.

Na ambiguidade de símbolos e metáforas, este conjunto de fotografias delineiam um universo que lembra o de Goya em Caprichos. É um “sueño de la razón”, um sono ou um sonho – em Espanhol a palavra é ambivalente – da razão que “produce montruos”, produz monstros, no verdadeiro sentido da palavra: seres extraordinários, eventos prodigiosos. Um mergulho nos sinuosos túneis do subconsciente até chegar ao mundo dos mortos, até às almas dos mortos aparecerem para dizer, “Ya es hora” – chegou a hora. A mente, escura como o fundo de um poço onde tudo chega a um fim. A mente brilhando como uma faísca de onde emerge a luz.

Asylum of the Birds é um mundo onde loucura e sabedoria se misturam. As imagens viajam ao longo de uma linha ténue onde o facto encontra a ficção, a perceção transforma-se em miragem, e a ilusão em revelação. É um livro de mudanças, de metamorfoses simbólicas e materiais. O lugar onde a identidade vacila entre o eu e a sua representação, as suas sombras e os seus reflexos. O tema transforma-se em algo separado de si mesmo, simultaneamente diferente e paradoxalmente idêntico. Tal como nas fotografias intituladas Demented, Headless e Liberation onde as cabeças humanas estão arrancadas dos seus corpos e os rostos desaparecem, mascarados ou substituídos pelos dos manequins. Ou em Mirrored, Omen e Consolation , onde estão reduzidas a monótonos clichês e recortes de jornais antigos. Imagens das imagens. E não é a cabeça por si só, como o centro do pensamento, que simboliza o decorrente processo de transformação que é o caminho para o conhecimento. O corpo, também, os vasos dos sentidos e das emoções, encarnam as suas próprias manifestações. Também Transformation, Inflated and Deflated, Mourning, Seduction, Serpent Lady e Offering mostram silhuetas, efígies, carcaças, desenhos, bonecas e estátuas como passos numa viagem pelos domínios da carne que impercetivelmente se confundem entre si, da sexualidade à doença, do florir ao definhar, do prazer à dor. É uma galeria de espelhos mágicos, que revelam ao fotógrafo – e através dele, ao espetador – as imagens do Eu que as armadilhas da realidade escondem.

Didi Bozzini

Roger Ballen

Ballen é um dos mais importantes fotógrafos da sua geração. Nasceu em Nova York em 1950 mas viveu na África do Sul por mais de 30 anos. O seu trabalho como geólogo levou-o para o meio rural e fê-lo pegar na sua câmara e explorar o mundo secreto das pequenas localidades Sul Africanas. No início, explorou as ruas desertas no abrasador sol do meio-dia mas, assim que deu o passo de começar a bater às portas das pessoas, descobriu um mundo dentro das casas que iria gerar um profundo impacto no seu trabalho. Estes interiores, com os seus distintivos acervos de objetos e os seus ocupantes dentro destes mundos fechados, levaram a sua visão única numa trajetória desde a crítica social até à criação de metáforas para o subconsciente. Após 1994, já não olhava o meio rural como tema do seu trabalho, encontrando-o perto de sua casa em Joanesburgo.

Ao longo dos últimos 30 anos o seu caraterístico estilo de fotografia evoluiu usando um simples formato quadrado num forte e belo preto e branco. Nos primeiros trabalhos em exposição a sua ligação à tradição da fotografia documental é notória mas, ao longo dos anos 90 desenvolveu um estilo que descreve como “ficção documental”. Após 2000, as primeiras pessoas que descobriu e documentou, vivendo à margem da sociedade Sul Africana, tornaram-se progressivamente no elenco de atores com quem Ballen trabalhou na série “Outland ans Shadow Chamber”, colaborando na criação de perturbadores psicodramas.

A linha entre fantasia e realidade, na sua mais recente série “Boarding House and Asylum of the Birds” (publicada na primavera de 2014 por Thames and Hudson) tem-se tornado cada vez mais indefinida, e nesta série utilizou desenhos, pinturas, colagens e técnicas de escultura para criar cenários elaborados. As pessoas estão agora ausentes quase por completo; substituídas por fotografias de pessoas, usadas como adereços, por partes de bonecas ou manequins ou algo parecido com isso, como mãos, pés e bocas desincorporadas, chamando a atenção de forma perturbadora ao longo de paredes e de pedaços de pano. Os frequentemente improvisados cenários, são complementados pelos imprevisíveis comportamentos dos animais que aparecem fotografados num instante de observação. Ballen inventou uma nova estética híbrida nestes trabalhos, mas uma estética que continua bastante enraizada na fotografia.

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