Céline Gaille

"Aceita-O - 
Um Álbum Português 1919-1979"

Aceita-O - 
Um Álbum Português 1919-1979

O encontro acidental com o rosto de uma foto antiga foi o ponto de partida de um sonho que parecia o eclodir de um grande fogo. Um segredo de família será revelado. O silêncio inicial de uma mulher, o mistério de um pai desconhecido e diferente, de uma irmã fantasiada, o afastamento incompreensível do filho, os silêncios aparecem na trama obscura da história desta família que se assemelha a tantas outras. Sozinha, viúva, Fernanda, a lisboeta, usa as suas próprias fotografias e outras recebidas há um ano com uma carta da Catarina, a branca mulher da Guiné, que diz ser a filha do mesmo pai, para fazer a revelação sobre as suas origens familiares a seu filho Guilherme. É o início de um novo olhar sobre eles, sobre ela própria e o Portugal ultramarino até então desconhecido. Esta família espalhada através do oceano Atlântico remete também para a história de Portugal e do seu antigo império colonial, da ditadura, da violência que esta produziu além e aquém-mar.

Céline chegou a Lisboa em agosto de 2014. A ideia de inventar e construir um álbum de uma família de ficção nasceu do meu desejo do usar fotos privadas para criar um narrativa de memória colectiva. Livros de história, romances, poesia portuguesa e reportagens radiofónicas responderam à sua curiosidade pela história deste país. Quase meio século de Salazarismo e a implosão do império colonial, após as guerras coloniais em África durante os anos 60, parecem ter calado as memórias individuais e escurecido uma memória coletiva, apesar da Revolução dos cravos e da mudança de regime político em 1974. Quarenta anos mais tarde, este passado ainda é um tema delicado e muitas vezes calado. Embora distante a esta história, Céline Gaille escolheu trabalhar sobre o silêncio que cobre o estrondo deste mundo desaparecido, do qual ainda existem muitos resíduos ao nosso alcance.

Na Feira da Ladra, entre 2014 e 2016, foi comprando uma e outra fotografias, até coleccionar dezenas de imagens pequenas e anónimas, sem conexões umas com como outras. Estas imagens de família carregam com elas um bem comum que a artista queria entender melhor, uma memória de um povo pelo qual tinha imensa curiosidade e interesse. Elas permitiram contemplar uma memória que não era a sua, entre sonhos e confusão. Depois veio o momento de restituir uma capacidade de vida a cada pedaço de existência através da construção de uma ficção narrativa. Queria responder à pergunta: de que memória se trata? Ao olhar para estas imagens, tinha a sensação de uma estranha semelhança entre as pessoas. Confiante com o desconhecido, as minhas reflexões levaram-me ao outro português, através da sua vida familiar e da sua memória íntima. Trata-se também de uma memória coletiva e uma memória privada, de Portugal e da Europa.

A exposição foi criada a partir livro "Aceita-o – Um álbum português 1919-1979", Ed. The Eyes Publishing, 2016

Céline Gaille

Agora vive em Lisboa, mas antes viveu em Paris, Roma e em Nova York, e viajou pela Europa de leste e pela Rússia. No seu trabalho de autor, ela demonstra uma pequena inclinação para o velho, o estranho, e o privado. Céline tem curiosidade sobre o que está "do outro lado do espelho" e em explorar isso, ela persegue as memórias e as identidades através da fotografia. A fronteira entre a observação documental distante e a proximidade pessoal ao tema é muito estreita, já que o registo da realidade pode não ficar completo sem a sua consciência comum. A sua abordagem literária da fotografia atua no desejo de contar histórias e criar imagens como projeções. O seu passado ligado à história da arte, o seu gosto pelo outro e um lugar no estrangeiro, são uma grande influência na sua investigação visual.

Museu Nogueira da Silva

Avenida Central 45/61 - 4710-228 Braga

O Museu Nogueira da Silva deve a sua fundação ao legado, feito em Setembro de 1975, a favor da Universidade do Minho pelo Senhor António Augusto Nogueira da Silva....

Mais informação

Horário

Terça a Sexta | Tuesday to Friday | 10h00—12h00 e 14h00—18h30 Sábado | Saturday 14h00—18h30

Encerram Sábados de manhã, Domingos e Segundas.

Apoios Institucionais

Braga UM DGArtes GovernoPortugal