Carmelo Nicosia

O Rugido e a Canção

Há uma voz imemorial nestas paisagens, na pronúncia da água quando se aquieta ou encrespa, o sol e na névoa que são alegorias do começo do mundo. Podemos inventar ao barco, a hora, a sombra que fica no cais à espera de uma rosa, o crepúsculo e a árvore da infância, outra vez caligrafando a música do reencontro. O voo das narcejas muito ao longe, antes dos pássaros no litoral. Uma arca para as sensações e o seu desenho a reacender-se. Os gestos de quem amamos: inscritos na areia como se casca do eterno. Nas casas além do molhe deixaremos a chuva, o recolhimento, certa manhã de passos errando pelas ruas e um nome à deriva. Com os metros tocaremos o sal de todas as viagens por arquivar, frémitos que são o acontecer e não o séria das lembranças. Diremos ao espaço minimal que sabemos o orvalho da construção, vamos narrando uma estória própria sobre as películas à distância do sopro e do desafio. Nesse jeito de descoberta, revista, digressão, os ícones observados não se confinam ao perímetro do denotativo: acompanham, pontuando e amiúde sugerindo, uma aventura que afinal se faz nossa. Aquela face a iluminar-se mo caminho do horizonte é, por exemplo, heterónima da que tivemos um dia, após o júbilo, enquanto procurávamos novas fogueiras para a madrugada. As cores esbatidas enunciam porventura quando silenciamos, instantes de sobressalto, vésperas, levitações.

E o mar. Um deserto azul, o lugar onde erguer a cada primordial, a raíz do vento. O rugido e a canção , o enternecimento, a dor. O rosto da terra numa vertigem de espuma. A sílaba átona e a utopia. Nunca um coração de doou sem dos seu percurso entre abismo e claridade.

 

 

José Manuel Mendes

Abril de 1995

  • Carmelo Nicosia nasceu na Catania em 1959.

     

     

    Exposição:

     

     

    Casa da Cultura de Avintes

    Segunda a Segunda: 10h00 - 18h00

     

     

     

     

     

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