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O Mundo ao Principio

Virginia Rota

Exposições
13 Set 2019 > 27 Out 2019
Museu D. Diogo de Sousa

Prémio Galícia de Fotografia Contemporânea


Na sexta edição do Prémio Galícia de Fotografia Contemporânea, o júri decidiu selecionar "O Mundo ao Principio", de Virginia Rota, como um ensaio fotográfico digno de uma exposição itinerante de dois anos, e digno da publicação do livro da coleção OF pela Difusora de Letras, Artes e Ideias. Este prémio foi lançado anualmente pela Associação Outono Fotográfico e contou com o patrocínio da Administração da Galiza e Lugo, e do apoio da instituição Afundación.

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No começo, encontramos beleza em todas as coisas e damos importância ao que realmente importa para nós. Mas estes são conceitos que não sobrevivem ao culminar da infância, que desaparecem abruptamente quando tudo está preenchido com prioridades absurdas que cegam a nossa visão e nos fazem esquecer sobre como compor uma imagem e, assim, desaprendemos a beleza, construímos vigorosamente imagens de atordoamento, que transformam a concepção da importância do que realmente importa em algo um pouco efémero. O ensaio de Virginia Rota nasce da necessidade de voltar ao momento anterior e tomar consciência do horror, da volta ao tempo da inocência numa demanda pessoal que é exigida no processo de identidade das crianças, um apelo à sabedoria da infância, um retrato da liberdade de pensamento.

Virginia trabalha nisto há três anos, junto com as crianças, co-autoras ** desta exposição. A faixa etária está entre 4 (idade madura para a linguagem) e 11 anos (início da juventude). As 25 crianças foram escolhidas por caraterísticas físicas e/ou por um desenvolvimento intelectual diferente do comum. Assim, em primeiro lugar, elas receberam uma câmara fotográfica descartável e foi-lhes pedido para fazerem um retrato. Cada criança terá entre uma semana e um mês para fotografar a beleza e o importante, sem receber qualquer outra informação, e pedindo aos pais para que não intervenham nas suas decisões e escolhas aquando da criação do retrato. No final da série de 27 fotos, Virginia reuniu com cada criança para obter comentários sobre as imagens que eles fotografaram. O uso de uma câmara descartável não foi uma coincidência. Virginia quer que as crianças tenham consciência da restrição de disparos para um aproveitamento otimizado, pretende-se que fotografem com um objeto que lhes pertença, e também que tomem uma posição diante do fotografado, razão pela qual ela escolhe a ausência de tecnologias como o zoom.

As fotografias das crianças têm um aspeto tosco, numa tentativa de lembrar as primeiras fotografias da história, onde a importância era que ficasse na emulsão a realidade em vez de um efeito de estenopo-lente, e, na verdade, neste projeto estas são as primeiras fotografias da história de cada uma destas crianças. Apresentado como um trabalho em grupo com ocultação consciente da autoria, vemos como as crianças, sem terem estudos de arte, são capazes de criar composições fotográficas onde são visíveis regras de composição bem conhecidas. Podemos tirar uma conclusão clara: a preocupação delas é a mesma seguida por artistas de toda a história da arte. Apesar de não estarem a trabalhar com uma intenção artística, é recorrente e constante em toda a série a intenção de tentar capturar uma ideia, tentando definir um tema específico, que é ao mesmo tempo, imenso. «Poderíamos dizer que estamos diante de algo infinito, que não pode ser definido de forma alguma, e que as crianças estão conscientes disso e assim expressaram, tanto no projeto, como nas cartas e conversas que tivemos antes das sessões de fotos. Eles tratam de apanhar o indescritível, estando conscientes dessa luta durante todo o processo. Olga, de 11 anos, contou-me que tentou fotografar o que não podia levar para casa, como por exemplo, a natureza» conta a própria artista.

Levando em consideração as séries feitas por Rota, estas não estão muito longe do que já nos tem habituado com o seu trabalho autoral - ou mesmo com o seu trabalho profissional - que são esses retratos que nos olham fazendo-nos questionar, e mostrando-nos a alma toda. Como em "Saudade" ou "Cine", há um uso magistral da iluminação, ou melhor dito, da sua falta, das sombras. Mas, desta vez com um novo recurso: a cor. A autora utiliza de forma ligeira os tons intensos no claro-escuro, talvez  aproximando-se da infância perdida na busca pela inocência morta que ela fala, ou está apenas a recordar o seu caminho para a maturidade enquanto artista.

Vítor Nieves. Curador de exposição

  • Virginia Rota

    Espanha

    Virgínia Rota é fotógrafa e artista visual, 1989.
    O seu trabalho já foi exposto na Galiza, em Espanha, no Senegal, na Grécia, Itália, Rio de Janeiro, Milão, Santiago, Chile e Guatemala. Com interesse nas artes performativas, Virgínia trabalhar com a companhia de dança La Phármaco, sendo responsável pela produção de todo o conteúdo visual e audiovisual. Virgina trabalhou com companhias de dança tais como Tom Peeping, Janet Novás e Daniel Abreu. Virgínia foi premiada pelo seu trabalho diversas vezes, recebeu o Prémio Galiza de Fotografia Contemporanea 2018, Young Creators of Madrid, Nexofoto 2016, 3rd Edition The Word Painted Word. Ankaria Foundation (Second Prize) with Saudade, created by Elsa Paricio, Open Work 2016. FinalistA. Caja de Extremadura, MalagaCrea 2015. Primeiro prémio. O seu trabalho faz parte de coleções privadas e publicas tais como: Setba Foundation (Barcelona), Contemporarte (University of Huelva) and Malagacrea (CAC, Málaga).